O Erê Praia Lounge foi alvo de embargo do Iphan e de inquérito do MPF após intervenções em área de restinga; documentos recentes também citam imóveis ligados à família Vorcaro

O Erê Praia Lounge, localizado na Estrada da Balsa, em Arraial d’Ajuda, distrito de Porto Seguro, voltou ao centro das atenções após documentos da Operação Compliance Zero, relacionados ao caso Banco Master, mostrarem que imóveis na região passaram a ser analisados pela Justiça de Minas Gerais em uma investigação sobre suspeitas de fraude à execução e possível esvaziamento patrimonial.
Antes de aparecer nos documentos relacionados ao caso Master, o empreendimento já era alvo de questionamentos ambientais e administrativos. A obra foi embargada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e, posteriormente, o Ministério Público Federal (MPF) na Bahia instaurou inquérito para apurar possíveis irregularidades relacionadas ao imóvel.
Denúncias sobre a retirada de vegetação
A situação ganhou repercussão nas redes sociais em janeiro deste ano, quando o ambientalista Tadeu Prosdocimi, do perfil @eutadeueu, publicou vídeos mostrando a área onde o beach club estava sendo construído.
Nos dias 14 e 19 de janeiro, Tadeu mostrou intervenções no local e questionou a retirada de vegetação de restinga, além das autorizações necessárias para a obra.
Em um dos vídeos, o ambientalista chamou atenção para a necessidade de autorizações dos órgãos responsáveis por intervenções na região e afirmou ter procurado a Secretaria Municipal de Meio Ambiente de Porto Seguro em busca de esclarecimentos. Segundo Tadeu, não houve resposta aos questionamentos, e ele posteriormente levou a denúncia ao Ministério Público Federal.
O ambientalista também questionou a fiscalização no local e a existência de placas e documentos referentes às autorizações ambientais e patrimoniais.
As declarações fazem parte de vídeos publicados em janeiro e são apresentadas como questionamentos feitos pelo ambientalista, não como conclusões definitivas sobre a regularidade da obra.
Licença municipal de reforma falso
Há registro de uma licença municipal de reforma, identificada como A011/2024. Segundo apurações, esse registro em uma das placas seria falso. O documento, no entanto, refere-se a uma reforma e não autoriza, por si só, a criação de novas obras ou ampliações, tampouco a supressão da vegetação de restinga.
Em outro vídeo, publicado em 19 de janeiro, Tadeu questionou justamente a documentação apresentada para a intervenção. Ele mostrou uma placa que identificava a Milo Investimentos S.A. e indicava uma autorização relacionada a reforma.
O ambientalista questionou se as intervenções observadas no imóvel poderiam ser consideradas apenas uma reforma, diante da existência de piscina e de estruturas ampliadas. Também levantou questionamentos sobre documentação técnica e autorizações do Iphan.
Tadeu ainda afirmou que máquinas da Prefeitura teriam sido utilizadas na retirada da vegetação e questionou a existência de medidas para recuperação da área. Essa afirmação é uma alegação apresentada pelo ambientalista e não deve ser tratada como fato comprovado sem documentação ou manifestação oficial do município.
Iphan identificou intervenções
O imóvel foi vistoriado pelo Iphan em 26 de novembro de 2025. Segundo informações divulgadas anteriormente, os técnicos encontraram a obra em andamento, incluindo piscina e estruturas de grande porte, sem autorização do órgão e sem projeto apresentado.
Em nova vistoria, realizada em 8 de janeiro de 2026, os técnicos constataram a continuidade das intervenções e registraram a supressão de vegetação de restinga.
A área possui aproximadamente 6 mil metros quadrados e integra o Conjunto Arquitetônico e Paisagístico de Porto Seguro, tombado pelo Iphan. O instituto também solicitou informações à Secretaria do Patrimônio da União (SPU) para verificar eventual sobreposição com terrenos de marinha.
Em janeiro, o Iphan determinou o embargo da obra. Mesmo durante o período de embargo, o espaço realizou evento. Reportagem da Agência Pública registrou uma festa realizada no local em fevereiro e informou que o responsável pelo empreendimento afirmou possuir licença de funcionamento emitida pela Prefeitura, diferenciando essa autorização do embargo da obra.
MPF abriu investigação
O caso também chegou ao Ministério Público Federal, que instaurou inquérito para apurar possíveis irregularidades relacionadas ao imóvel e à atuação da Milo Investimentos S.A.
O procedimento passou a cobrar medidas de regularização perante órgãos como Iphan e SPU, além de prever a possibilidade de adoção de medidas judiciais.
A O Erê Beach Club Ltda. afirma possuir personalidade jurídica própria, administração independente e quadro societário distinto. A empresa declarou que Henrique Vorcaro não é sócio, administrador ou representante legal do empreendimento.
Ligação com a família Vorcaro
A relação com a família Vorcaro aparece porque a Milo Investimentos S.A. é apontada em documentos e reportagens como empresa ligada a Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, e Natalia Bueno Vorcaro Zettel, irmã do empresário.
Com a divulgação de novos documentos da Operação Compliance Zero, imóveis de alto padrão em Arraial d’Ajuda passaram a aparecer nas investigações patrimoniais relacionadas ao caso Banco Master.
Segundo o BNews, a Justiça de Minas Gerais busca acesso a e-mails, mensagens, planilhas e outros documentos relacionados a operações de dação em pagamento envolvendo imóveis na região. Entre os investigados aparecem Henrique Moura Vorcaro, a Milo Investimentos S.A., o Fundo Red Asset e o empresário Ricardo Lopes Ferreira.
A dação em pagamento ocorre quando um bem é utilizado para quitar, total ou parcialmente, uma dívida. No caso investigado, a Justiça busca esclarecer as circunstâncias dessas operações e se houve eventual esvaziamento patrimonial.
Beach club continua funcionando
Apesar do histórico de embargo e das investigações ambientais, o O Erê Beach Club continua em funcionamento, divulgando programação, eventos e atrações nas redes sociais.

A situação chama atenção porque a obra já havia sido embargada pelo Iphan e o empreendimento chegou a realizar evento durante o período de embargo, conforme reportagens publicadas anteriormente.
A continuidade das atividades, contudo, deve ser diferenciada do embargo da obra. Conforme explicou anteriormente um responsável pelo empreendimento à Agência Pública, o estabelecimento possui licença de funcionamento, enquanto o embargo dizia respeito à obra.
Caso Master amplia pressão por transparência
Os novos documentos sobre os imóveis em Arraial d’Ajuda surgem em meio a uma semana de importantes desdobramentos no caso Banco Master.
Na quarta-feira (9), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a quebra completa do sigilo das investigações envolvendo todos os envolvidos no caso e pediu que a medida fosse adotada com urgência.
Na sexta-feira (11), a Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu ao Supremo Tribunal Federal o levantamento do sigilo de todos os procedimentos relacionados à investigação, com as ressalvas previstas em lei.
No mesmo dia, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, deu prazo de 24 horas para que o ministro André Mendonça retirasse o sigilo de todos os documentos relacionados à Operação Compliance Zero.
Mendonça afirmou posteriormente ter disponibilizado os procedimentos relacionados ao julgamento do caso, preservando dados pessoais e informações que, segundo ele, precisam permanecer protegidas para não prejudicar investigações em andamento.
Além dos imóveis em Arraial d’Ajuda, documentos relacionados ao caso também mencionam uma mansão em Trancoso, avaliada em cerca de R$ 300 milhões.
O que ainda precisa ser esclarecido
Os vídeos publicados por Tadeu Prosdocimi são de janeiro de 2026 e servem como registro dos questionamentos feitos naquele período sobre a obra, a vegetação de restinga e as autorizações.
A novidade atual está nos novos documentos e desdobramentos das investigações do caso Banco Master, que colocaram imóveis em Arraial d’Ajuda no radar da Justiça de Minas Gerais.
A existência da licença municipal A011/2024, por sua vez, não permite concluir que tenha havido autorização ambiental para supressão de restinga ou para a realização de novas obras e ampliações.
O Na Mídia News acompanha os desdobramentos do caso e mantém espaço aberto para manifestações da Prefeitura de Porto Seguro, da Secretaria Municipal de Meio Ambiente, do O Erê Praia Lounge, da Milo Investimentos e dos demais envolvidos, para esclarecimentos sobre as autorizações, as intervenções realizadas no imóvel e os novos elementos que aparecem nas investigações do caso Master.