Síndrome de Péssimos Pais afeta relacionamento com filhos

Especialistas indicam desfrutar dos momentos em família para criar vínculos mais fortes
Especialistas indicam desfrutar dos momentos em família para criar vínculos mais fortes (Foto: Pexels)

Especialista orienta redução da culpa e qualificação do tempo separado para a família

Pais que antes dividiam o tempo entre trabalho e lazer, hoje estão cada vez mais ativos, tanto dentro, quanto fora de casa. A cada dia surgem mais atividades, compromissos profissionais são levados para dentro do lar e o tempo fica mais escasso.

Essa mudança na divisão e cuidados com a família também traz preocupações e julgamentos: será que meu filho sente minha falta? Estamos sendo bons educadores?

Perguntas como essas tornam-se cada vez mais comuns e preocupam a nova geração de pais. É a chamada Síndrome de Péssimos Pais. 

De acordo com uma pesquisa liderada pela Universidade de Toronto, no Canadá, a quantidade de tempo que os pais dedicam aos filhos não é o fator determinante para o desenvolvimento saudável.

O estudo, que avaliou mais de 6 mil famílias, concluiu que a quantidade de tempo que os pais passam com os filhos não tem relação com a saúde emocional, com o comportamento ou com o desempenho escolar até os 11 anos. Apesar disso, a qualidade do tempo em que a família dedica aos filhos é essencial.

Mindfulness

De acordo com a neuropedagoga, psicanalista e coordenadora pedagógica da Conquista Solução Educacional, Fabianni Mamone, para obter essa qualidade durante o tempo em conjunto é preciso estipular prioridades. “Hoje, os pais acham que estar perto é estar junto, quando na realidade estar junto requer mindfulness (atenção plena) e desfrutar dos momentos em família para criar vínculos reais e significativos, estando verdadeiramente presentes e sem interferências de celular e trabalho”, orienta. 

Fabianni alerta ainda que pais que passam parte do pouco tempo em família conectados ao celular, não fazem ideia do que provocam aos filhos – e a situação se agrava quando o assunto é o esvaziamento do vínculo familiar.

“Como consequência desse desamparo, encontramos crianças mais birrentas, irritadas, hiperativas, tentando desesperadamente chamar a atenção. Muitas vezes, elas apresentam forte tendência a sentimentos incontroláveis para a idade, como frustração, depressão ou forte estresse, somatizando em um corpo tão pequenino graves patologias”, adverte.

Primeira infância

Além disso, a especialista também mostra preocupação em relação à primeira infância: “com a falta de estímulos como olho no olho, toque e afeto, a criança começa a apresentar atrasos no desenvolvimento cognitivo motor, além do emocional”.

De acordo com Fabianni, esse abuso tecnológico produz um ciclo desastroso. “Pais agem sem limites no tempo destinado ao uso da tecnologia com a desculpa de interferência do trabalho e, com isso, filhos inevitavelmente fragilizados se sentem frustrados, apresentando comportamentos rebeldes”.

Ainda de acordo com a psicóloga, atualmente, as crianças e jovens não estão sendo suficientemente ouvidos. “O canal de comunicação na família se estabelece quando pais aprendem ouvir com empatia as necessidades, aspirações e desejos dos filhos. A escuta empática é se colocar no lugar do outro, ouvir sem julgamentos antes de cobrar e perceber os sentimentos e necessidades do filho, com respeito e atenção”, explica.

Uma dica para essa abordagem é usar momentos de reunião familiar para falar do seu próprio dia. Isso estimula os filhos a contarem sobre o dia deles, o que lhes dá um sentimento de pertencimento à família. 

Recompensando o tempo

Além disso, outro ponto que deve ser monitorado pelos pais é a forma de recompensar o tempo em que ficaram ausentes. Fabianni explica que oferecer presentes, ganhos materiais ou até mais liberdade não é o caminho para estreitar os laços com os filhos.

“Os pais precisam aprender a trabalhar a culpa e não transferir a responsabilidade da ausência ao filho. Pais ‘culpados’ por enfrentar jornadas de trabalho extensas tendem a compensar essa falta com presentes mesmo sem notar, até atitudes permissivas diante de comportamentos inadequados”, expõe a especialista. De acordo com ela, é preciso entender que não tem como estar presente o tempo inteiro. “É desumano ser perfeito”.

Impossibilidade da perfeição

Por fim, a principal dica para os pais que buscam estreitar os laços com os filhos e manter o desenvolvimento da criança ou adolescente de forma saudável e próxima, é ser um modelo para eles e não se culpar pela impossibilidade da perfeição.

“Educar não é uma tarefa simples, requer responsabilidade, afeto e limites. Na tentativa de acertar, os pais podem exagerar na dose de cuidados, na bronca ou perder a mão na hora de impor limites. Mas quando as atitudes de comparação, culpa, desrespeito, cobranças exacerbadas e até humilhação se tornam frequentes na relação familiar, é hora de acender o sinal de alerta”. 

De acordo com Fabianni e outros especialistas, estas são algumas dicas para superar a insegurança na parentalidade: 

  • Quando surgir a culpa, pense em coisas positivas que já conquistou com seu filho e o que se orgulha de ter ensinado. 
  • Não se compare com outros pais. Toda rotina tem suas peculiaridades e nenhum filho é igual ao outro. 
  • Busque sempre especialistas e profissionais para sanar suas dúvidas; grupos e fóruns na internet podem trazer ainda mais insegurança para as decisões.
  • Tenha o seu tempo. Reservar momentos para si mesmo é essencial para manter a saúde mental e a boa relação com a família.
  • Lembre-se sempre que o principal exemplo dos filhos são os pais. Se suas atitudes estão corretas, seu filho aprenderá com isso. 
  • Tenha em mente que quem sabe o melhor para os filhos sempre serão os pais. Siga seus valores e tome seus próprios caminhos. 
  • Nem todas as reações dos filhos são consequência dos ensinamentos dos pais. Não se culpe por momentos negativos e busque proteger seu filho com conselhos e diálogos. 
  • Lembre-se que uma criança ainda não sabe controlar suas emoções e, por isso, precisa da sua ajuda para entender e interpretar sentimentos.

Comente com Facebook