Veracel é acusada de invadir terras e desmatar a mata atlântica

Veracel Celulose

A Veracel se tornou uma das maiores empresas de celulose do Brasil. Emprega 2 mil pessoas, ocupa 213 mil hectares de terra e, produz mais de 1 milhão de toneladas de celulose por ano

Mas é, também, acusada em mais de 10 processos de desmatar Mata Atlântica, invadir terras indígenas e ocupar propriedades de pequenos produtores rurais.

Fundada em 1991, a Veracel Celulose é uma joint venture entre a gigante finlandesa Stora Enso e a brasileira Fibria. A empresa que atua em diversas cidades do sul da Bahia se tornou o centro da vida de Asdrubal Fortunato da Silva por 21 anos, ao figurar no outro polo de uma briga judicial que se arrasta há 23 anos.

O cenário da disputa é o interior do município de Santa Cruz Cabrália (BA). Lá e em municípios vizinhos, como Belmonte, Itabela e Eunápolis, o território da Veracel foi apelidado de cemitério de eucaliptos.

Milhares de árvores perfiladas, que em breve serão cortadas para virar móveis e cercas, ocupam o habitat de plantas nativas da Mata Atlântica- hoje só 7% da floresta está de pé.

O apelido “cemitério” foi dado porque o silêncio dos corredores de eucaliptos só é cortado pelo som dos galhos que balançam ao vento e das folhas secas no chão, quando pisadas por quem passa por ali.

De olho na chance de criar gado e produzir alimentos numa área que ainda não havia se transformado em plantação de eucalipto, Asdrubal vendeu suas três fazendas em Minas Gerais e investiu todo o dinheiro em 651 hectares de terras, em Santa Cruz de Cabrália, em 1993.

Três anos depois, numa visita às suas terras, notou que eucaliptos começaram a surgir onde antes havia árvores nativas. A Veracel Celulose teria expandido a plantação em território privado. O que se seguiu foi uma burocrática discussão sobre documentos cartoriais e um processo na justiça que se arrasta até hoje.

O título de Asdrubal, emitido no cartório de Porto Seguro, em 1993, atestava que ele era o dono da terra. Outro título, emitido depois, mas também em 1993, dizia que a Veracel era dona de 1.260 hectares próximos às terras de Adrubral.

Três anos depois, em 1996, a empresa entrou na Justiça com pedido para retificar o tamanho da sua propriedade. A Veracel argumentava que, na realidade, a terra que comprou tinha 3.543 hectares e ficava numa área que englobava as propriedades de Asdrubal.

Ele e mais de 20 famílias com terras na região contestaram essa retificação e ganharam essa disputa judicial. Asdrubal entrou, então, com processo de reintegração de posse. Uma perícia determinada pelo juiz da Comarca de Santa Cruz Cabrália atestou que a a Veracel não possui documentos que comprovem que ela é proprietária das terras.

Mas, até agora. não houve uma decisão judicial final e o caso continua na primeira instância, mais de 20 anos depois de iniciado.

Asdrubal morreu aos 73 anos, de câncer, sem ver o resultado final dessa disputa. Enquanto o processo tramita, a Veracel segue plantando e vendendo eucalipto na propriedade, diz um dos filhos dele.

“Vai fazer 25 anos de ocupação dessas terras. A Veracel já plantou eucalipto e cortou várias vezes. Já fez quatro cortes de eucalipto nessa área e vai fazer o quinto corte agora”, diz Asdrubal Fortunato da Silva Junior.

“Meu pai tomou prejuízo enorme com isso e ainda teve que pagar a vida inteira advogado para essa demanda, de uma terra que ele comprou e nunca conseguiu usar”, lamenta.

Em nota enviada à BBC News Brasil, a Veracel disse que “não comenta processos judiciais em curso”, mas diz que “possui a documentação de todas as suas áreas”.

A empresa disse ainda que “cumpre todas as exigências legais necessárias para exercer suas atividades produtivas e destinadas ao plantio de eucalipto como matéria prima para produção de celulose”.

“Findo os recursos disponíveis, qualquer que seja a decisão da Justiça será cumprida pela Veracel”, afirma a Veracel.

“Só não quero passar nunca mais por isso. Você trabalha, trabalha e depois ver isso acontecer é muito doloroso. É uma luta com um grande poder econômico.”

Com informações da BBC News Brasil

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