Comando Vermelho abastece o CP de armas para fazer frente a aliado do PCC na Bahia

Veículos incendiados
Veículos foram incendiados durante ataque de rivais na Gomeia (Foto: Bruno Wendel / CORREIO)

A facção criminosa Comando da Paz (CP) está ficando mais poderosa na Bahia, com armas potentes e um treinamento específico para manuseá-las. Novos equipamentos chegam de fora para tornar ainda mais violentas as disputas com o arquirrival Bonde do Maluco (BDM).

Recentemente, o CP formou uma aliança com o Comando Vermelho (CV), facção do Rio de Janeiro. Desde então, esta é a segunda maior organização criminosa do Brasil que abastece o Comando da Paz.

Observando as apreensões do Estado, já é possível notar a chegada das armas de fora. A Secretaria de Segurança Pública da Bahia (SSP) registrou um aumento de 113% nas apreensões de fuzis no estado em 2020 com relação a 2019, mas não atribui diretamente ao fornecimento do Comando Vermelho. Foram 49 armas desse tipo retiradas das ruas no ano passado, enquanto, em 2019, ações da polícia encontraram 23 fuzis.

Ademais, o tráfico internacional faz com que parte das armas que chegam à Bahia cruzem as rodovias do estado. Conforme o inspetor Jader Ribeiro, chefe do Comando de Operações Especiais da Polícia Rodoviária Federal (PRF) na Bahia, não há dúvidas de que a chegada do arsenal é obra de grupos rivais como o CV e o PCC (aliado, na Bahia, do Bonde do Maluco).

“São armas muito caras. Pistola que custa R$ 10 mil e fuzil R$ 40 mil, mas em grande quantidade, tipo 30 pistolas, 20 fuzis. Uma pequena quadrilha não tem como arcar com esse custo todo, e sim uma rede que sustenta esse mercado. Sem sombra de dúvidas que as armas que chegam à Bahia vêm do tráfico internacional, através das grandes organizações criminosas do país, o CV e PCC, para alimentar a guerras entre as facções baianas”, afirma.

De acordo com a SSP, não é atribuição da polícia da Bahia investigar o tráfico internacional. Entretanto, disse que atua com repressão e inteligência contra organizações criminosas e apoia forças federais, quando solicitada.

A Polícia Federal afirmou que não vai se manifestar.

CV e CP

Apesar do PCC já ser apontado como aliado do BDM na Bahia, não faz muito tempo que o Comando Vermelho chegou ao estado. Em setembro de 2020, foi anunciada a chegada da facção carioca. Na ocasião, siglas do CV foram pichadas no território do Comando da Paz e, em alguns casos, postas ao lado das iniciais da organização baiana, evidenciando a relação entre as duas facções criminosas.

Em setembro do ano passado, o Comando Vermelho determinou luto na Bahia pela morte de um dos seus fundadores, o traficante Elias Maluco. Em outubro, o governador Rui Costa afirmou que não permitirá que nenhuma facção controle Salvador.

Fornecedores disputam

Aqueles que vivem em locais tomados pelo tráfico conhecem bem o medo de ficar entre o fogo cruzado e acabar pagando com a vida. De acordo com especialistas em segurança pública, há uma novidade no cenário: o aumento da violência de uma disputa entre fornecedores.

O sociólogo Luiz Claudio Lourenço, coordenador do Laboratório de Estudos Sobre Crime e Sociedade (Lassos) da Universidade Federal da Bahia (Ufba), explica: “De fato, é algo novo no cenário da atuação dos grupos, porque, anteriormente, você tinha o PCC fazendo esse papel e os vários grupos disputando o comércio varejista entre si. Por trás dessa rivalidade entre o Comando da Paz e o BDM, a gente está observando uma disputa também para o fornecimento. Não mais uma disputa apenas do varejo de drogas, mas o fornecimento entre o PCC de um lado e o Comando Vermelho de um outro”.

Jader Ribeiro, inspetor da PRF, afirma que há uma corrida armamentista. “No ano passado, apreendemos duas pistolas da Croácia na BR-324. Foram trazidas do Paraguai, onde o PCC e o CV têm bases, com destino a Salvador. Não sabemos para qual grupo criminoso as armas iriam, mas  obviamente isso estimula uma corrida armamentista, porque o grupo rival também vai querer também se fortalecer”, disse

Conforme Luiz Claudio Lourenço, essas disputas tendem a gerar confrontos mais pesados. “Anteriormente, você tinha o PCC cumprindo hegemonicamente o fornecimento de armas e drogas. Então seria, supostamente, mais fácil estabelecer um tipo de acordo entre os grupos. Mas, a gente não via isso. Havia uma fragmentação desses grupos”, afirmou.

O sociólogo afirma que o armamento pesado nas mãos de mais uma facção pode fazer com que a Bahia viva um cenário parecido com o que aconteceu no Ceará, com uma disputa entre PCC e CV por trás de um embate local.

“De qualquer maneira, quando se incrementa o arsenal de armas pesadas, a possibilidade de ser ter conflitos maiores e com mais letalidade é uma hipótese provável”, disse o pesquisador.

Periperi

As disputas entre as organizações criminosas da Bahia tendem a ganhar contornos ainda mais violentos com arsenal e treinamento vindo de fornecedores maiores. O poder das facções já é evidente em bairros onde os postos de tráfico estão sendo disputados entre CP e BDM, com os confrontos mais agressivos. Este é o caso de Periperi, em Salvador.

Até o começo de abril, os moradores do local possuíam certa tranquilidade, sem confrontos extensos, de maiores proporções, ao ponto de parar um dos bairros mais movimentados do Subúrbio Ferroviário. Entretanto, no dia 11 deste mês, o BDM tentou tomar o território controlado pela CP, e a comunidade da Baixada São Jorge, entre Colinas e Mirantes de Periperi, viveu momentos de terror.

De acordo com moradores, nos últimos vinte anos, era a inscrição do Comando da Paz – “Tudo 2” – que aparecia nos muros e postes de quase toda a Suburbana. Pouco a pouco, as demarcações foram dando lugar ao ‘Tudo 3’, do rival BDM. Isso ocorreu à medida que as lideranças foram assassinadas. O CP está reagindo, apesar de hoje o Bonde do Maluco ser a maioria no Subúrbio.

“Os caras (CP) estão com bala na agulha e estão caindo pra cima do BDM”, afirmou um morador que vive há 30 anos em Periperi.

O homem relata que o domínio das facções estaria fracionado na região: o CP controla a ladeira e o entorno do Cemitério Municipal de Periperi, a localidade de Ilha do Rato e a Rua da Prefeitura. Já a Praia Grande, Rua das Pedrinhas, na localidade de Bariri e em grande parte de Mirantes de Periperi, o domínio é do BDM.

Ainda conforme os moradores de Periperi, os integrantes do Comando da Paz são os mesmos que obrigam os comerciantes do Lobato a pagarem até R$ 100 por semana de pedágio, como denunciado por uma reportagem do Correio. Uma taxa tem que ser paga à facção pelos mototaxistas que trabalham na Avenida Suburbana no trecho do Lobato.

“Todo o dinheiro recolhido é usado para o CV trazer armas para o CP”, disse um dos moradores.

São Caetano 

Da mesma forma, mais confrontos já são observados pelos moradores do bairro de São Caetano. O BDM controla o tráfico no bairro, e no dia 12 de fevereiro, traficantes do CP foram até a Rua Direta da Gomeia a fim de vingar as mortes de dois integrantes do grupo ocorridas dias antes. Novamente, os moradores ficaram no meio da disputa.

Os criminosos deixaram um rastro do terror após não encontrarem os rivais, atirando contra as casas. Ademais, eles ainda atearam fogo a um carro e uma moto de uma família.

“Do início do ano para cá, a gente via eles passando de pistola, revólver. Vez e outra uma carabina. Agora, todos estão de fuzis. Jogam granadas como se estivessem soltando traque no São João. Isso aqui virou um inferno”, desabafa uma dona de casa, que faz parte daqueles que não estão tendo paz.

Mudança tática

Depois de testemunhar a forma como os conflitos acontecem, um soldado da Polícia Militar deixou a casa onde morava e mudou de bairro. Ele conta: “Com a chegada do Comando Vermelho, o CP passou a ter força para brigar com o BDM, para manter o que ainda tem e recuperar o que foi tomado. Eu morava no bairro onde os tiroteios entre eles passaram a ser frequentes. Às vezes eram duas, três vezes num dia usando granadas”.

“Certa vez, eu tinha acabado de chegar do trabalho, quando um bonde, com uns dez a 15 rapazes, alguns carregando um fuzil em cada mão, passou na porta de minha casa. Tenho mulher e filha e não ia esperar uma covardia para cima de mim”, desabafou o policial.

Inclusive, o agente notou uma mudança tática. Ele afirma que, “antes, eles mexiam no armamento de qualquer jeito e isso gerava traficantes baleados e até mortos por comparsas acidentalmente. Hoje, se percebe nos vídeos, os traficantes não andam mais com os dedos no gatilho e isso demonstra noção técnica que fazem questão de exibir”.

“Isso deixa bem claro que o Estado vem perdendo o controle da situação, pois, à medida que essas facções são abastecidas de armas potentes e táticas, se tornam mais fortes que o próprio Estado, neste caso, a polícia”, pontua o soldado.

O policial citou como exemplo o Complexo do Nordeste de Amaralina, onde a SSP fez uma operação em dezembro de 2020 para retirar os quebra-molas colocados pelos traficantes do CP. Ele conta: “Tive colegas que foram emboscados ainda dentro das viaturas no Nordeste. Por sorte, nenhum deles morreu”.

Modelo empresarial

O professor e coordenador do curso de Direito do Centro Universitário Estácio da Bahia, coronel Jorge Melo, comparou as relações entre Comando Vermelho, do Rio de Janeiro, e o Comando da Paz, na Bahia, e entre o Primeiro Comando da Capital, de São Paulo, e os baianos do Bonde do Maluco, a modelos empresariais.

“Têm moldes realmente empresariais. E, como se fosse uma empresa, o Comando Vermelho está agora ampliando sua organização criminosa e já se estabeleceu na Bahia. Sua chegada aqui se deu através de uma aliança com o Comando da Paz, que passa a funcionar como uma subsidiária do CV. É como se fosse um processo empresarial de fusão, aquisição muito comum no meio empresarial, sendo que aqui estamos falando de organizações criminosas”, afirma.

De acordo com o especialista, para o CP, a aliança funciona como uma sobrevida, uma chance de tentar quebrar o grupo rival do BDM. “Do ponto de vista do Comando da Paz, essa aliança é positiva porque vai lhe dar um fôlego, uma sobrevida para se manter no mercado e fazer frente à tentativa de hegemonia do Bonde do Maluco”, ele pontua.

Além disso, o professor comentou que o novo coronavírus está sendo aproveitado pelas organizações criminosas, provavelmente pelo fato de que algumas lideranças foram postas em liberdade durante a pandemia.

“Não adianta o negacionismo da área da segurança pública, porque isso é uma realidade não só da Bahia, do Brasil. Nessa pandemia, essas operações têm crescido, talvez em função do retorno de algumas lideranças postas em liberdade por causa da covid e essas ‘empresas’ estão aproveitando a situação para se consolidar em suas posições no mercado”, afirmou.

Fonte: Da Redação Namidia News com informações de Correio

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