União Europeia convoca cúpula de urgência para 23 de maio

Eleição de François Hollande na França precipita encontro de líderes políticos com o objetivo de acelerar acordo sobre austeridade e crescimento; Espanha e Grécia preocupam os mercados

PARIS – Uma reunião de cúpula informal e extraordinária dos chefes de Estado e de governo da União Europeia será realizada em Bruxelas, em 23 de maio, uma semana após a posse do novo presidente da França, François Hollande. A decisão foi informada pelo presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, ontem, e tem como objetivo acelerar um acordo entre França e Alemanha em torno da inclusão de uma política de crescimento no Pacto de Estabilidade aprovado em março.

O principal ponto de preocupação dos investidores foi o impasse político na Grécia. A perspectiva ontem era de que novas eleições parlamentares tenham de ser realizadas no mês que vem para tentar reagrupar as forças políticas de forma a viabilizar um novo governo, o que o vencedor da eleição, Antonis Samaras, do Nova Democracia (centro-direita), não conseguiu. Lucas Papademos, primeiro-ministro, pediu ao país que “não desperdice” os sacrifícios já feitos pelo povo grego, “depois de ter passado por grande parte da dificuldade para reconstruir a economia”.

Na Espanha, o provável resgate do banco Bankia, o terceiro maior do país, também preocupa. Isso porque o governo de Mariano Rajoy terá, em tese, de injetar entre € 7 bilhões e € 10 bilhões – um dinheiro que o Estado não tem.

Para responder às dúvidas dos investidores, a cúpula informal foi convocada. O evento vinha sendo evocado desde que o favoritismo de Hollande se confirmou no primeiro turno da eleição francesa, em 22 de abril. Ontem, Rompuy informou via Twitter: “Quarta-feira, 23 de maio, será a data do jantar informal de chefes de Estado e de governo”. A data fixada dá a Hollande uma semana entre a posse e seu primeiro grande desafio oficial: avançar nas negociações com a chanceler da Alemanha, Angela Merkel.

Na terça-feira, o porta-voz da chancelaria, Steffen Seibert, afirmou que Berlim descartava “renegociar o pacto fiscal”, firmado entre líderes — entre os quais o atual presidente da França, Nicolas Sarkozy, em março. Sem evocar a expressão, Seibert também deixou clara a resistência da chancelaria à uma política de estímulo ao crescimento por meio de investimentos públicos — ao estilo “keynesiano”.

Ontem, Angela Merkel divulgou o teor de uma carta enviada a Hollande com tom menos enfático. Após saudá-lo por sua eleição, a chanceler afirma que cabe a ambos tomarem “decisões necessárias para a União Europeia e a zona do euro”. “Você assume funções cheias de responsabilidades em um período cheio de desafios”, afirma. A executiva diz estar “certa de que a cooperação será reforçada” e completa lembrando “a responsabilidade comum pela Europa” e a disposição de “trabalhar para o bem de nossos países e da Europa”.

Em resposta, Pierre Moscovici, diretor de campanha de Hollande e nome certo em seu ministério reiterou ontem, em entrevista à rádio RTL, sua confiança em um compromisso entre os dois países. “É preciso que haja uma conversa profunda entre os dois chefes de Estado e de governo. A intenção de Hollande é clara e não mudou: é reorientar a construção europeia em um sentido mais favorável ao crescimento”. O executivo, ex-ministro de Relações Europeias, ainda se disse otimista. “Pela experiência que tenho, nós chegaremos a um compromisso. Estamos começando bem. O clima entre Hollande e seus interlocutores europeus é francamente muito bom.”

Bruxelas

Em Bruxelas, as autoridades europeias tentam encontrar um denominador comum entre a nova administração da França, agora nas mãos do socialista François Hollande, e da Alemanha, conduzida pela conservadora Angela Merkel. A Comissão Europeia prepara um documento a ser apresentado aos líderes políticos com propostas para relançar o crescimento sem comprometer as contas públicas.

Entre as medidas, estão a criação de títulos da dívida europeia, com custo mutualizado (os eurobônus), que seriam destinados a financiar grandes programas de infraestrutura. Há ainda uma proposta de aumento de capital em € 10 bilhões do Banco Europeu de Investimentos (BEI), que hoje conta com € 50 bilhões em seus cofres. Completam as medidas um imposto sobre transações financeiras. Todas essas bandeiras constam do programa do Partido Socialista (PS) e eram defendidas em campanha por Hollande.

Bruxelas prepara ainda uma agenda de crescimento, chamada de Europe 2020, que preveria investimentos em novas tecnologias e desenvolvimento sustentável. “O debate que opõe a consolidação fiscal e o crescimento é falso”, disse o comissário europeu de Relações Econômicas, Olli Rehn. “Em um contexto econômico de baixo crescimento e endividamento elevado, não temos escolha: é preciso investir nos dois objetivos ao mesmo tempo.”

 

 

ESTADÃO

Comente com Facebook