O trabalho compensa: prisões por tráfico caíram 61% entre 2007 e 2011

X. na cafeteria do shopping onde trabalha: jovem de 19 anos prefere hoje ganhar por mês o que conseguia em um dia no tráfico do que voltar para o crime Foto: Nina Lima / Extra

Aos 13 anos, X. não estava passando pelo que se pode chamar de uma adolescência normal. Com os estudos deixados para trás por causa de uma gravidez e obrigada a pagar as contas, começou a transportar armas e drogas da Cidade de Deus, na Zona Oeste, onde morava, para a favela da Chatuba, na Penha, Zona Norte do Rio. Por serviço – e eram vários por mês – ganhava cerca de R$ 700.

A chegada da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) à Cidade de Deus, em fevereiro de 2009, não interrompeu sua função de leva e traz do tráfico. Acabou apreendida, ainda menor de idade, numa casa com três colegas e uma carga de cocaína. Mas a mão que bate, às vezes, também é a que afaga: o policial da UPP que flagrou a garota a aconselhou a deixar o crime. Hoje, aos 19 anos, a jovem trabalha numa cafeteria num shopping. O salário é de R$ 720 por mês, o mesmo que conseguia ganhar num único dia. Ela garante, porém, que a escolha foi certa.

– Agora, pelo menos, não corro da polícia. Não tenho mais medo de morrer – conta X., antes de seguir para o expediente das 14h às 22h.

A história de X. é a mesma de muitos outros ex-bandidos. A legião dos que deixaram o tráfico para trás aparece nos dados do sistema carcerário do estado do Rio. A reincidência criminal, ou seja, pessoas que são novamente presas após deixarem a cadeia caiu, em dez anos, a um quarto do que era.

Enquanto o número de prisões cresceu desde 2007, a quantidade de presos por tráfico caiu drasticamente. Entre 2007 e 2009 – antes e depois da criação das UPPs – encolheu a menos da metade. Os dados de 2008 não foram passados pelo estado ao Ministério da Justiça.

X. é um exemplo da mão de obra mais modesta do tráfico. Gente que, com a economia em alta e a instalação das UPPs, viu uma oportunidade de largar a vida bandida. Casos que o EXTRA conta, desde domingo, na série “O trabalho compensa”.

– É uma satisfação muito grande saber que a gente mudou 100% a vida de uma pessoa – orgulha-se o soldado Stanley Fernandes, há quatro anos na Polícia Militar e responsável por fazer a menina sair do tráfico.

Para X., o estopim para entrar no crime foi o abandono dos estudos no sétimo ano, por causa da pressão alta durante a gravidez de risco. Só teve ajuda da mãe, doméstica. Passou cinco anos ostentando dinheiro, joias e roupas da moda, gastando alto no salão de cabeleireiro, indo a bailes funk – e também vivendo muitos sufocos.

Mas, desde novembro do ano passado, abandonou a vida luxuosa e ilícita para servir cafés e fazer sanduíches. Com menos dinheiro e mais esperança no futuro.

Elizethe, Andreia, Daniele e Denise: fora da prisão e com emprego Foto: Extra / Marcelo Theobald

As raízes louras retocadas a cada 15 dias chamam a atenção. A sombra cinza destaca o olhar. O pequeno brinco dourado dá o toque feminino. Além de luvas, capacetes, botas e aventais, as quatro mulheres soldadoras e uma pintora do estaleiro Mac Laren, em Niterói, têm outra peculiaridade: todas tiveram envolvimento com o crime, foram presas e, já livres, conseguiram uma vaga na empresa. E elas agradecem a possibilidade de não reincidirem no delito.

– Leio os jornais e vejo que a Grécia e o resto da Europa estão em decadência. Aqui no Rio, graças a Deus, as oportunidades estão aumentando. Hoje em dia, até morador de rua arruma emprego – filosofa a soldadora Denise Frazão, de 26 anos.

Filha de costureira com padeiro, ela entrou para o tráfico de drogas na favela da Grota, no Complexo do Alemão. Aos 21 anos, ficou três anos e quatro meses presa em Bangu 8. Hoje, tem orgulho de trabalhar no estaleiro das 7h às 17h e ganhar “mais de mil reais”, que gasta com roupas e cosméticos.

Para a presidente do estaleiro, Gisela Mac Laren, o uso de mão de obra de ex-detentos é uma responsabilidade que todos os empresários devem assumir. Para ela, além de gerar vagas e buscar pessoas qualificadas, o empregador tem que ajudar pessoas que estão em condições desfavoráveis.

O projeto de inserção do Mac Laren acontece em parceria com a Secretaria estadual de Administração Penitenciária (Seap) e visa a diminuir a reincidência.

– Além disso, as mulheres têm as mãos mais firmes – completa Gisela. – As soldas delas são muito menos refeitas do que as dos homens.

 

 

EXTRA

Comente com Facebook