Cirque du Soleil muda o cotidiano de moradores e comerciantes

Companhia Cirque du Soleil está gerando renda e a expectativa de que, após o fim do espetáculo, o poder público dê atenção ao local

Alexandre e a mulher, Anita, ficaram espantados com a estrutura do circo montado no quintal de casa

Até outubro do ano passado, o servente Alexandre dos Santos, de 23, a mulher, Anita Ribeiro, de 26, e o pequeno Alexander, de 3, viviam na companhia dos grilos em uma casinha simplória, em frente ao Córrego Sarandi, na Avenida Professor Clóvis Salgado, nº 1.400, no Bairro Bandeirantes, na Região da Pampulha. Vizinho do campo do União Futebol Clube e de vários lotes vagos, o casal nem podia imaginar ver o entorno de sua posse, de pouco mais de 200 m2, se transformar no endereço mais badalado do verão em Belo Horizonte. “Falaram para a gente que ia chegar um circo. Aí, pensei que fosse um circo de palhaço”, conta Anita, grávida de oito meses. A dona de casa gostou da novidade e diz ter ficado encabulada com o grande movimento no preparo do terreno.

Agora, o que a impressionou mesmo foi a chegada das 65 carretas, com mil toneladas de metal. Diante dos olhos estatelados da família Santos, em sete dias – a exemplo da criação do mundo –, cerca de 200 operários, comandados por 22 técnicos estrangeiros, ergueram as sete tendas do Cirque du Soleil. Uma cidade mambembe com 125 funcionários de 25 nacionalidades, vindos de quatro continentes.

O complexo circense de encantar mudou a paisagem do lugar, próximo à velha Toca da Raposa. Tudo ao redor da casinha de número 1.400, da família Santos. “Depois desse circo o bairro vai crescer mais”, diz Alexandre, empolgado com os novos vizinhos saltadores, já que dos grilos ele não dá mais notícia. O canto ali agora é outro. É a trilha original de Montanaro Michael, que embala os saltos fantásticos e a mise-en-scène espetacular dos 58 performers do maior circo do planeta. Anita, convidada pela produção, foi ver Varekai e aprovou a performance da vizinhança. “É tudo bonito demais”, diz.

A quilômetro dali, na Rua Policarpo Magalhães Viotti, há outro cidadão bastante entusiasmado com as tendas. Logo que soube da atração internacional no bairro, Eduardo Rodrigues do Patrocínio, de 42, fez empréstimos para levantar R$ 17 mil e investir em seu botequim. O comerciante, homem de hábitos simples, pai de família, repaginou o Área Verde Sport Bar e está se dando bem no atendimento a servidores do Soleil. Eduardo, o filho e a mulher até esticaram o horário de trabalho. Antes, davam expediente das 16h até as 23h. Com o Soleil, chegam a ficar das 6h até à 1h30. O comerciante espera que a área seja transformada em espaço para grandes eventos e que o poder público continue “dando moral” para o bairro. “A gente ainda carece de linha de ônibus e de mais segurança. Durante o evento, aqui é muito seguro. Mas depois falta policiamento”.

Do outro lado do Córrego Sarandi, em frente à posse da família Santos, já é o Bairro Santa Terezinha. Pedro William Almeida Lima, de 15, auxiliar de jardinagem, interrompe o trabalho para admirar o circo. “Olhe só que interessante aquele regador em cima da tenda maior. Deve ser para aliviar o calor, né!?”, cogita. O estudante diz que conhece bem a trupe pelo DVD de um tio, admirador do grupo canadense. “Eles são incríveis. No trapézio não há nada parecido. Eles saltam de alturas bem loucas. É radical”, entusiasma-se. Pedro William jamais pensou ter a oportunidade de trabalhar tão perto da companhia. Diz contentar-se com isso. Bom moço, estudante, até teria condições de pagar pelo ingresso mais barato (R$ 70, a meia-entrada), mas pensa na família. Especialmente nas irmãs menores, de 12 e 6 anos. “Elas já assistiram ao DVD e endoidaram”, conta, já de volta ao serviço.

Personagem da notícia
Há 18 anos casada com o Soleil

Canadense, com formação em teatro, dança e música, Isabelle Corradi é a típica artista completa que faz do Cirque du Soleil referência mundial. Há 18 anos na trupe, já foi professora, preparadora de elenco e, atualmente, canta em Varekai. Simpática, poliglota – arrisca-se sem fazer feio com bom vocabulário em português –, Isabelle é contagiante. Diz-se imensamente feliz com sua “missão humana”, especialmente pela alegria que seu trabalho oferece para as plateias de todo o mundo. De família de três gerações de músicos, “casada com o Varekai”, demonstra prazer em conversar e fazer novas amizades. Vegetariana, a cantora circula com gosto pelos pequenos cafés próximos ao hotel, na Região Centro-Sul, e diz gostar muito do pão de queijo mineiro. Nas suas andanças pelo planeta, diz ter conhecido lugares inesquecíveis. Na Região Metropolitana de Belo Horizonte, cita o Topo do Mundo, na Serra da Moeda, com o entusiasmo de quem sabe apreciar a natureza. Despede-se com “namastê” – o deus que há em mim saúda o deus que há em você – e segue rumo a grande tenda com seus passos leves de menina-bailarina.

A venezuelana Dominic Champagne é responsavel por facilitar a integração da trupe à cultura local

Trabalho social

Para ajudar a diminuir o abismo social que existe entre o alto nível de sua estrutura e a vizinhança de poucos recursos, o Cique du Soleil tem projeto social para atender crianças e adolescentes carentes. Entre as iniciativas da companhia, está a liberação da entrada em pré-estreias para convidados selecionados por parceiros locais da Fundação Cirque du Monde, mantida pela trupe.

EM

Comente com Facebook