‘Não é a primeira vez que óleo chega às praias’, relembra pescador de Cabrália de 100 anos de idade

Historia de pescador

Seu Laurindo relembra que óleo chegou às praias na década de 60.

Adriano trabalha na construção civil, é também pescador e presidente da associação de pescadores do Guaiú.

Sempre frente aos movimentos da comunidade, como abrir o acesso do mar para o rio a fim de salvar as espécies, buscar caminhos para os pescadores chegarem com seus carros para retirar a produção do dia, Adriano sonha estudar engenharia e a primeira vez que o vi foi vestindo beca e usando capelo na formatura em administração de empresas.

Dias depois nos encontramos no Fórum num grupo que ia ao encontro do promotor para discutir o alto preço das passagens para travessia da balsa, e foi na sala de espera que ouvi um pouco de sua história.

Tem uma garra e um brilho nos olhos que atraem quem gosta de ouvir historias, como eu.

Passei a fazer parte dos seus grupos de whatsaap, a seguir suas redes sociais e quando o Nordeste começou a ser banhado com o óleo sua atuação passou a ser constante.

Com a matéria cada vez mais descendo para o sul da Bahia, Adriano passou a alertar em vídeos sobre o grande mal desconhecido.

Munido de um celular, diariamente, envia um relatório mostrando a praia ainda limpa, a chegada das pequenas partículas na areia, o mutirão com voluntários unindo folhas de coqueiros, redes e sombrites para impedir o óleo de entrar no rio e destruir os mangues e pequenos crustáceos.

Ele é o meu “Bom Dia Brasil” noticiando o que está acontecendo no Guaiú posso prever como estará em Vila de Santo André.

Adriano hoje enviou um áudio contando sobre o avô por quem foi criado, sua maior referência, grande inspiração.

Laurindo Francisco de Souza, tem 100 anos, nasceu na região de Santa Maria Eterna, na vizinha Belmonte, e mora no Guaiú desde 1940.

 Com tanta conversa sobre o derramamento de petróleo, ele contou que por volta dos anos 60 também apareceu muito óleo na praia, bem parecido com o que está acontecendo.

Sem redes sociais e difícil comunicação, nem havia energia elétrica, apenas umas 3 casas no Guaiú, o mesmo número em Santo Antônio e Santo André, os moradores tomaram providencias.

“Seu” Laurindo conta que há algum tempo guardava tonéis que tinha encontrado na praia e os aproveitou para armazenar o piche que chegava.

Aos poucos a praia ficou limpa e durante anos guardou esta matéria que utilizava para calafetar os barcos que usava para pescar e trazer alimento à família.

Vendo os “novos invasores” que o neto vai recolhendo, “seu” Laurindo compara ao que retirou nos anos 60.

Segundo ele, primeiro chegaram bolas pequenas, depois um volume maior e acredita que por ser inverno os blocos eram mais duros, não tão pastosos como tem visto.

Na sabedoria e lucidez dos seus 100 anos, na experiência de quem viveu sempre à beira mar, ele sabe muito bem o quanto aumentou a temperatura no planeta.

Não precisa de qualquer aparelho para medir o efeito estufa, acredita que isso poderá influenciar no movimento e a expansão deste derramamento.

Reflexões, análises de um simples pescador que teme pelas praias, mangues, peixes, crustáceos, restinga, tudo que o cerca e onde plantou sua vida, sua família.

Mas tem esperança de que em mais alguns anos tudo isso seja apenas uma história para o seu neto contar.

Léa Penteado

Comente com Facebook