Por trás de cada drapeado, um contrato bilionário

Vestir uma celebridade no tapete vermelho é desenhar uma marca que tem – ou não – as portas abertas aos melhores papéis, diretores e contratos com cosméticos e grifes

Reese Whiterspoon, no Globo de Ouro deste ano: brilhar nos eventos traz contratos milionários às atrizes

Todo tapete vermelho tem modelos estonteantes, vestidos que conquistam, tendências de estilo que se destacam e chegam até a marcar momentos importantes na história de uma estrela. A festa do Globo de Ouro, em 15 de janeiro, teve tudo isso, mas, nas edições anteriores, os visuais da festa ajudaram inclusive a confirmar o prestígio de algumas e alavancar a carreira de outras.

Quando Reese Whiterspoon se destacou, em 2007, logo depois de se separar de Ryan Phillippe, seu modelo amarelo justo de Nina Ricci lhe deu brilho; ela estava mais sensual que nunca – ou pelo menos foi o que pareceu.

Há dois anos, Maggie Gyllenhaal recebeu uma injeção de sofisticação em seu perfil para lá de discreto com o sereia em tom pêssego de Roland Mouret. No ano seguinte, na cerimônia do Oscar, Katherine Heigl usou um vestido vermelho espetacular que a transformou de garota engraçadinha e simpática numa diva glamorosa.

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“Aquele vestido mudou muita coisa”, diz Nicole Chavez, que convenceu a atriz a usá-lo. Na opinião da estilista, que trabalhou com Catherine Zeta-Jones e Scarlett Johansson, momentos como esse podem afetar uma carreira. “As pessoas – diretores de elenco, executivos – param e prestam atenção e, de repente, se interessam em trabalhar com você”.

Modelo desfila criação de Haider Ackermann na coleção Primavera/Verão da semana de moda de Paris em 2011: estilistas rivalizam em fama com astros do cinema

Essa influência enorme exercida pela imagem, que há muito é controlada por agentes e assessores de imprensa, começa a ser dividida (em parte) com um grupo de estilistas influentes e lançadores de tendências como Annabel Tollman, Petra Flannery, Estée Stanley, Deborah Waknin e nomes famosos como Rachel Zoe, cuja fama já se equipara à das mulheres que elas vestem – e até as ofusca.

A maioria delas defende a ideia de que a exposição no tapete vermelho serve de outdoor para os estilistas, que se beneficiam em centenas de milhares de dólares de promoção gratuita, e transformam ilustres desconhecidos como Elie Saab e Naeem Khan em grifes cobiçadas. Pouca gente lembra que ela também serve para destacar o talento de seu criador e transformar um simples profissional da costura numa autoridade com poder para alterar o curso da carreira de uma atriz.

Quem tem esse poder hoje em dia? Segundo a lista feita pelo Hollywood Reporter no ano passado, ele está nas mãos de Elizabeth Stewart, Leith Clark, Anna Bingemann e Jessica Paster. Esse grupo seleto também inclui Jennifer Rade, que trabalha com Angelina Jolie, e Tiina Laakkonen, que construiu sua reputação baseada no trabalho que fez com Carey Mulligan, a jovem estrela com quem a maioria das stylists daria o braço direito para trabalhar.

Karla Welch: Hailee Steinfeld, atriz de 14 anos roubou a festa do Globo de Ouro no ano passado e sua fama foi junto

Em temporada de premiações e festas, você é basicamente quem você veste. Quando Hailee Steinfeld, de 14 anos, roubou a cena na cerimônia do Globo de Ouro do ano passado num vestido branco de Prabal Gurung, suas stylists, Karla Welch e Kemal Harris, dividiram a atenção com ela; quando Natalie Portman causou furor em 2011, também no Globo de Ouro, com o vestido pink de cetim de Viktor & Rolf, Kate Young, que é quem a veste, abocanhou parte da glória. Essa promessa de reconhecimento talvez ajude a explicar por que esses profissionais aceitem trabalhar horas sem fim em favor da moda, mas geralmente subjugando seu próprio gosto e instinto em favor da estrela para quem trabalham.

Mesmo assim, como os profissionais mais experimentados do ramo ressaltam, é preciso mais do que um olho bom, uma ética de trabalho puritana e a capacidade de abdicar de si mesmo para se tornar um stylist poderoso: hoje em dia, essa distinção é reservada àqueles que conseguem fazer suas clientes se destacarem com vestidos deslumbrantes o suficiente não só para lhes garantir os melhores papéis, mas capas de revista e contratos de lançamento de perfumes e representação de cosméticos que as celebridades de hoje se acham no direito de conquistar.

George Kotsiopoulos, apresentador do "Fashion Police" no canal E!: "Vestir-se para um grande evento não é o mesmo que se preparar para uma festa e apenas se arrumar"

“Vestir-se para um grande evento não é o mesmo que se preparar para uma festa e apenas se arrumar”, afirma George Kotsiopoulos, estilista e ex-editor da “T: The New York Times Style Magazine”, que hoje é um dos apresentadores do programa “Fashion Police” no canal a cabo E!. “Ultimamente é mais uma questão de vender sua imagem como uma marca.”

O modelo lavanda pálido de Reem Acra que Olivia Wilde usou no Emmy Awards de 2008 chamou a atenção dos executivos e teve força para alavancá-la do elenco de “House” para filmes comerciais como “Tron: O Legado” e “Cowboys & Aliens”. Como sua estilista, Karla diz: “As roupas certas abrem muitas portas”.

Os chefões da indústria tendem a concordar. “Os estúdios têm o estilo em alta conta”, confirma Terry Press, consultora de marketing do entretenimento. Tanto que a comissão desses profissionais já está incluída no orçamento. “Hoje, um estilista é mais um item na lista de despesas”, ela diz. Porém, segundo o pessoal da indústria, o investimento vale a pena:um pequeno detalhe no tapete vermelho pode ajudar a mudar a imagem de uma atriz. “Se a sua cliente sempre faz papel de vilã”, explica Jeanne Yang, “você pode vesti-la com tule, por exemplo, para demonstrar que, na verdade, ela é uma mocinha ingênua”

George Kotsiopoulos, apresentador do "Fashion Police" no canal E!: "Vestir-se para um grande evento não é o mesmo que se preparar para uma festa e apenas se arrumar"

Há quem se destaque pela tradição. De fato, o visual sempre chique, mas jovial de Hailee inspirou os executivos da Miu Miu a contratá-la para estrelar sua campanha publicitária. A transformação de Mila Kunis, nas mãos de Flannery, de hipster meio desleixada em diva sensual ajudou-a a conquistar o cobiçado título de novo rosto da Dior – e um contrato como esse pode render milhões de dólares a uma atriz.

Na era da Internet, quando todo mundo virou crítico e tem o poder de massacrar as estrelas, “os estilistas começaram a se tornar extraordinariamente poderosos”, explica Melissa Rivers, produtora executiva do “Fashion Police”. Esse fenômeno também se deu numa época em que estrelas conscientes de seu estilo – como Nicole Kidman, Sharon Stone e Cate Blanchett – foram manchete graças às suas escolhas. “Sob vários aspectos, tudo contribui para esse estado de coisas.”

Foi ele que alçou os estilistas a esse novo status. “Muitos inclusive têm fome de poder”, revela Melissa. “Seguram os vestidos e só os liberam na véspera do evento. É um tentando sacanear o outro.”

June Ambrose, que veste de Mariah Carey a Sean Combs, durante o programa "Styled by June"

Com isso, deixam um rastro de clientes furiosas. Alguns tentaram até passar a perna em profissionais estabelecidos há tempos. Uma costureira famosa chegou ao cúmulo de correr nos bastidores da festa do Oscar para ajustar a barra de um vestido por que a concorrente era responsável.

Hoje em dia, os estilistas de maior sucesso têm menos controle sobre as roupas e, consequentemente, sobre a fama. “O ego tem que dar uma baixada”, revelou Cher Coulter, que vestiu Kate Bosworth e Kirsten Dunst. Assim como alguns outros profissionais, ela concordou em canalizar sua competência – e competitividade – para uma série de opções de potencial lucrativo, tanto que, há pouco tempo, se uniu a Kate Bosworth para lançar uma linha de joias, e parece que uma coleção de jeans está a caminho.

A profissão, para a maioria, requer precisão cirúrgica e o radar sensível de um analista. “Tenho que saber quando parar de forçar a barra”, conta Tara Swennen, cujas clientes incluem Kristen Stewart e Kate Beckinsale. “Se dou a uma delas um vestido e elas me olham de lado, já sei que não querem vesti-lo e pronto.”

Modelo desfila Zac Posen na Mercedes-Benz Fashion Week em Nova York: também no tapete vermelho do Globo de Ouro

Criar laços também é inevitável. “Você entra no quarto delas e acaba fazendo coisas que só faria com suas melhores amigas”, explica Leslie Fremar, responsável por elevar o nível de sofisticação de clientes como Charlize Theron e Julianne Moore.

Ela recorda a noite, no ano passado, no Shutters, reduto das celebridades de Santa Monica, na Califórnia, quando começou a convencer Maggie Gyllenhaal a usar o vestido da festa do Oscar. Dries Van Noten tinha mandado dois: um, mais escuro, o outro com padronagem exuberante. “Todo mundo deu palpite _ a maquiadora, a mãe dela, as amigas”, conta Leslie, “mas todas esperavam de mim a decisão. Eu fiquei meio insegura porque algumas clientes são minhas melhores amigas… mas, no fim das contas, tenho que lembrar que são também minhas chefes.”

Maggie optou pelo floral. “Fiquei feliz, mas lembro de só dizer: ‘Então é com ele que vamos’.”

 

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