Prefeitos e vices rompem parceria no meio do mandato

Eles quebraram a aliança política e vão tentar a sorte no pleito de outubro, em lados opostos. Em alguns casos, união não sobreviveu ao primeiro ano de mandato

Na campanha que os elegeu, caminharam lado a lado, sorridentes, sintonizados, até demais, com troca de elogios. Mas, no exercício do poder, se desentenderam e deverão atuar em campos opostos na eleição de 2012. Esse é o roteiro das desavenças entre o prefeito e o vice-prefeito eleitos em 2008 e que hoje, ao fim de três anos de mandato, estão rompidos. A situação de Belo Horizonte, envolvendo o titular Marcio Lacerda (PSB) e o seu vice, Roberto Carvalho (PT), se repete em outras cidades mineiras.

Adversários no plano federal, tucanos e petistas se juntaram em Manhumirim, na Zona da Mata, em 2004, quando foram eleitos como prefeito e vice o padre Ronaldo Lopes (PT) e o empresário Sebastião Ribeiro (PSDB). A chapa foi reeleita em 2008. No entanto, a lua de mel se desfez no fim de 2010, quando o vice anunciou a ruptura. “Foram várias coisas que me levaram ao rompimento. A primeira delas foi o desprezo. O PSDB ocupava duas secretarias na administração. O prefeito tirou o nosso pessoal e colocou no lugar pessoas do PT. Isso para nós foi um chute no traseiro”, alega Sebastião Ribeiro.

Ele lembrou que na campanha de 2010 também houve divisão na prefeitura, com um grupo (do prefeito) apoiando o então candidato a governador Hélio Costa (PMDB) e outro grupo (do vice) fazendo campanha para a reeleição de Antonio Anastasia (PSDB). O vice-prefeito disse que não vai se candidatar no próximo ano e que vai apoiar o nome do vereador Jesus Aguiar (PSDB) para disputar a sucessão municipal contra o candidato da atual administração.

O prefeito Ronaldo Lopes argumenta que foi o próprio PSDB, partido do vice-prefeito, que decidiu romper com sua administração. “Os dois vereadores do partido foram para a oposição”, afirmou. O chefe do Executivo desmente que teria “desprezado” o vice. “Ele aparecia comigo em todas as solenidades e em fotos. Mas o problema é que ele tinha uma atitude de querer ser o prefeito. O vice tem sua função e seu valor, mas tem seus limites”, afirmou.

O casamento na Prefeitura de Ipatinga, no Vale do Aço, também não deu certo. No fim de outubro, a vice-prefeita da cidade, a pastora Márcia Perozini (PSC), divulgou uma carta anunciando o seu rompimento com a administração do prefeito Robson Gomes (PPS), com o qual venceu a eleição extemporânea, em 30 de maio de 2010. A carta foi divulgada pela assessoria de comunicação da Igreja do Evangelho Quadrangular, da qual Márcia é coordenadora. No comunicado, a vice-prefeita alegou que decidiu romper com a administração municipal “por não compactuar com a displicência política existente”. “Acabei por observar que as divergências de ponto de vista exigiam o meu afastamento da administração.”

Declarou ainda que o fato de assumir tal posição ocasionou a demissão de todos os funcionários de seu gabinete, impossibilitando-a de atender a população. “Confesso minha tristeza por ver tudo passar diante de mim sem poder contribuir para a execução de projetos que sempre defendi.” Ainda no texto, ela diz que “aquele objetivo, que foi também objeto de campanha nas últimas eleições municipais, se perdeu ao longo do caminho.” A reportagem não conseguiu contato com Márcia Perozini. Procurada, a assessoria da Prefeitura de Ipatinga informou por meio de nota que a administração municipal “não reconhece como oficial a carta distribuída pela Assessoria Metropolitana de Comunicação, justamente porque o prefeito Robson Gomes da Silva (PPS) considera a pastora Márcia Perozini como vice-prefeita eleita ao seu lado pelo voto do povo”.

Ex-amigos Os desentendimentos políticos em Varginha, no Sul de Minas, acabaram com uma amizade de infância. Colegas desde o ensino fundamental, Eduardo Antônio Carvalho (PT) e Marcos Paiva Foresti (PPS), apesar de serem de partidos opostos no cenário nacional, se uniram na disputa do pleito de 2008 e saíram vencedores. Mas a relação dos dois mudou quando assumiram o comando da cidade. Segundo Marcos, o grupo de secretários petistas passou a dominar as ações na prefeitura e deixou de fora o “adversário político”.

O clima ficou ainda mais tenso quando o vice-prefeito entrou na competição de votos com uma candidata a deputada estadual petista, nas eleições de 2010. “Há três anos Eduardo não tira férias para eu não assumir. Ele tirou 10 dias de folga este ano. De acordo com a legislação, eu só assumiria depois de 15 dias”, reclamou Foresti. Nas eleições deste ano eles devem ficar de lados opostos no palanque, pelo menos essa é a pretensão do vice-prefeito. O prefeito não foi localizado pela reportagem no celular. A assessoria de imprensa informou que ele está em viagem.

Armadilha do destino
“Eu nunca participei da administração dela. Desde quando assumiu a prefeitura, ela foi eliminando um a um”, reclama Reinaldo César Guimarães (PMDB), ex-vice-prefeito e atual prefeito de Conceição do Mato Dentro, Região Central de Minas. Reinaldo se uniu a Nelma Carvalho (PR), no ano passado, para derrotar a família Costa, nas eleições extemporâneas. Eles venceram a primeira batalha, mas outra só estava começando na administração de Conceição. O fato é que o vice-prefeito, que se sentia rejeitado na administração, acabou saindo no lucro, já que Nelma foi cassada pela Câmara Municipal no início do mês por ato de improbidade administrativa e ele assumiu a cadeira do Executivo.

Ele diz que Nelma não cumpriu as promessas que fez para a sociedade, não o escutava e “acabou fazendo o mesmo que os adversários políticos”. Já a ex-prefeita argumenta que foi Guimarães quem não quis assumir o seu lugar de vice. “Quando eu o procurei para que assumisse o gabinete do vice-prefeito ele disse: ‘Por favor não me faça de novo esse convite. Já tenho problema de sobra no meu escritório de advocacia’”, conta Nelma.

As rixas políticas muitas vezes extrapolam os debates de interesse público e partem para a queda de braço que deságua em atitudes extremadas , como a proibição de acesso a gabinete e corte de salário. Em Montes Claros, de 362 mil habitantes, no Norte de Minas, o prefeito Luiz Tadeu Leite (PMDB) foi eleito ao lado da companheira de chapa, a dentista Cristina Pereira (PP), mulher do antigo adversário, o deputado estadual Gil Pereira, atual secretário estadual para o Desenvolvimento dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri e do Norte de Minas. Mas a união durou somente até as eleições de 2010, quando o prefeito lançou como candidato a deputado estadual seu filho, Tadeu Martins Leite (PMDB), que foi eleito. Logo depois, a vice rompeu com o prefeito e se licenciou para fazer campanha para o marido.

Cristina Pereira alega que rompeu com o chefe do Executivo porque foi “obrigada” a isso. “Não fui eu que me afastei da prefeitura, mas o prefeito que me afastou. Teve um dia que fui trabalhar e encontrei a porta do meu gabinete trancada”, afirmou. A vice-prefeita disse que, mesmo tendo direito aos subsídios, não recebe salário da prefeitura desde setembro de 2010. Por sua vez, Tadeu Leite alega que a vice, “por livre e espontânea vontade, parou de ir à prefeitura”. Ele afirmou que está disposto a liberar os pagamentos dos salários atrasados da vice. “Mas ela tem que comparecer à prefeitura para assinar o empenho”, assinalou. Tadeu Leite assegura que nunca trancou a porta do gabinete da vice. “A chave do gabinete estava com a própria vice-prefeita. Só que ela deixou a chave em casa”, disse, acrescentando que a “a prefeitura está de portas abertas para Cristina Pereira para que ela possa ajudar a administrar a cidade”.

Ameaça de chibata leva a fim da união 

Em Buritizeiro, 26,2 mil habitantes, separada de Pirapora pelo Rio São Francisco, a vice-prefeita Edna Salgado (PCdoB) se distanciou do prefeito Salvador Raimundo Fernandes (PT) ainda no primeiro ano de mandato. “O prefeito me acusou de ter participado de uma negociação para receber propina, coisa que nunca fiz. Ele chegou a declarar que ia me esperar no gabinete com uma chibata. Não dava para continuar com uma pessoa dessas”, relata Edna. Durante cinco meses (de setembro de 2010 a fevereiro de 2011), ela esteve no comando da prefeitura, por causa do afastamento do prefeito, motivado por denúncia de irregularidade em licitações. O titular retornou ao cargo graças a uma liminar concedida pelo Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG).

Edna Salgado afirma que queria “contribuir com a administração municipal”, sobretudo na área de educação, já que é professora universitária. “Mas sou proibida de entrar na prefeitura. Me ofereci para trabalhar, mas o prefeito mandou dizer que era para eu ficar em casa”, disse a vice, acrescentando que está “decepcionada” com a política. A reportagem, por várias vezes, tentou contato com o prefeito de Buritizeiro para ouvir sua versão, mas não conseguiu localizá-lo.

Janaúba, 65,3 mil habitantes, é outro município onde prefeito e vice não sentam à mesma mesa desde o primeiro ano de mandato. “Fiquei somente dois meses e 20 dias na prefeitura. Vi que o plano de governo era uma coisa e, na prática, tinha outro rumo”, conta o vice-prefeito Valério Dias (PPS), que chegou a exercer o cargo de secretário municipal de Obras no curto período. O vice afirma que se distanciou do prefeito José Benedito Nunes (PT) “por ele não cumprir os compromissos firmados com a população durante a campanha”. Dias reclama que não tem acesso a informações da administração e entrou com uma ação na Justiça para conseguir dados de licitações realizadas nos últimos dois anos. Por outro lado, o vice anuncia que vai disputar a prefeitura no ano que vem, devendo enfrentar o próprio Benedito, provável candidato à reeleição. O prefeito não foi localizado pela reportagem.

Também no Norte de Minas, titular e vice andam às turras em Mato Verde, de 12,7 mil habitantes. O vice-prefeito Antonio Pinheiro Teixeira (PP), o “Tone de Leobino”, se distanciou da prefeita Beatriz Fagundes Alves (PT) oito meses depois da posse. “Rompi por discordar da maneira com que ela vinha conduzindo a administração e, principalmente, por causa das denúncias de corrupção”, sustenta Teixeira. Ele ficou à frente da prefeitura entre o fim de junho e o fim de outubro enquanto a titular esteve afastada por causa de denúncia de desvio de verbas por intermédio de empresa fantasma, apresentada pelo Ministério Público estadual. Beatriz Fagundes, que retornou ao cargo por força de liminar concedida pelo TJMG, não foi localizada pela reportagem.

 

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