Dona de 50% da Veracel, a finlandesa Stora Enso se classifica como uma empresa comprometida com um “mundo mais verde”. Ela emprega 26 mil pessoas em mais de 30 países. Em 2018, vendeu 10,5 bilhões em produtos.
O maior controlador da Stora Enso é o Estado finlandês, por meio de duas estatais acionistas e de fundos de pensão.
“A Stora Enso trabalha com comunidades no mundo todo por meio das nossas cadeias de abastecimento e vendas. Em cada passo que tomamos, consideramos nossas ações e seus impactos nos outros”, diz a empresa no seu site em inglês.
Mas o professor de Desenvolvimento Social da Universidade de Helsinki Markus Kroger, que estuda há mais de 10 anos conflitos de terra envolvendo a Veracel no Brasil, diz que a conduta da Stora Enso em território europeu é diferente da adotada em países em desenvolvimento.
“O maior controlador da Stora Enso, diretamente ou indiretamente, é o Estado, mas o Estado argumenta que não quer interferir no funcionamento de uma empresa que é administrada de maneira privada”, disse Kroger à BBC News Brasil.
“Na Finlândia, seria absolutamente impossível que cometessem essas mesmas irregularidades. A Justiça seria aplicada lá.”
Conflitos de terra envolvendo a Veracel, indígenas e produtores rurais no sul da Bahia já viraram documentário da rede TV finlandesa YLE, que contou a história do pequeno agricultor Geraldo Pereira. Ele começou a cultivar mandioca e farinha no sul do Estado em 1971 e diz que a Veracel derrubou quatro de suas casas, além de destruir parte das suas plantações.
No documentário, a empresa afirma que é dona antiga das terras, enquanto Pereira apresenta documentos que atestariam que a propriedade é dele.
Já a rede de TV franco-alemã TV network ARTE transmitiu uma reportagem em que cita denúncias relacionadas às atividades da Veracel no sul da Bahia e critica o fato de a empresa possuir o Forest Stewardship Council, um certificado que atesta responsabilidade ambiental.
Em nota à BBC News Brasil, a Stora Enso diz que a Veracel tem um modelo “claro de governança” e que, “por meio de seus funcionários europeus e brasileiros”, participa de perto do desenvolvimento de políticas e estratégias da empresa brasileira.
De acordo com a Stora Enso, 105 mil hectares de terras pertencentes à Veracel são usados para conservação ambiental. A empresa finlandesa também diz que conflitos de terras provocados por “fronteiras mal delimitadas”, “mapas ultrapassados” e outros elementos, são “investigados exaustivamente”.
“A veracel tem uma longa história de diálogo e cooperação com as comunidades locais e alcançou acordos com 12 movimentos sem-terra desde 2011, reduzindo significativamente os conflitos agrários na região”, disse a empresa em nota enviada à BBC News Brasil.
Como as irregularidades seriam cometidas
Mas Markus Kroger, da Universidade de Helsinki, diz que suas pesquisas sobre denúncias de invasão de terra indígena, expulsão de produtores rurais e desmatamento ilegal de florestas pintam outro retrato sobre a relação da Veracel com a população local.
Kroger diz que encontrou evidências de irregularidades por parte da Veracel em pelo menos oito processos relacionados com conflitos de terras. “O que eu verifiquei é que, em muitos casos, o título da terra não bate com a matrícula. Se você cruzar os documentos dos cartórios com dados do Incra e da CDA (Cadastramento de Desenvolvimento agrário), você observa isso.”
Segundo Kroger, a chegada da Veracel na região que abarca municípios como Eunápolis, Itabela, Belmonte e Santa Cruz de Cabrália, mudou por completo a economia, a paisagem e a vida dos moradores do sul da Bahia.
“Antes da chegada da Veracel, nos anos 90, várias atividades eram desenvolvidas na região. Os produtores cultivavam cacau e diferentes frutas. E esses cultivos foram morrendo com a presença das plantações de eucalipto e as invasões de terras.”
o professor diz que a indústria de celulose não foi capaz de absorver todas as pessoas que moravam naquelas áreas, o que provocou um fluxo migratório do campo para os centros urbanos das pequenas cidades da região.
“As pessoas tiveram que se transferir para as cidades e a ocupação urbana desordenada transformou essas cidades, principalmente Itabela, em áreas muito violentas. A maior concentração hoje de sem-terra é no sul da Bahia.”
Kroger afirma que também há conflitos entre a Veracel e populações indígenas Pataxó e Tupinambá na região. Segundo o Mapa de Conflitos Envolvendo Injustiça Ambiental e Saúde no Brasil, um projeto da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em 2008 a Fundação Nacional do Índio (Funai) identificou como terra indígena 53 mil hectares nos arredores da unidade de conservação Parque Monte Pascal, em Porto Seguro (BA).
Com informações da BBC News Brasil