Açougue tira placa de preço após carne subir quase diariamente: ‘Parece tempo do Sarney’

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Açougue em Pinheiros tirou os preços das placas: 'A cada novo pedido, aumenta um pouco', diz gerente. (Imagem: Lucas Borges Teixeira/UOL)

O preço da carne bovina disparou no mês de novembro, impulsionada pela abertura das exportações para a China, alta que foi repassada dos frigoríficos para o varejo.

Donos de açougues e de restaurantes contam que tiveram que repassar parte desse aumento, mas não tudo, “para não perder o cliente”.

Uma reportagem do UOL visitou açougues na cidade de São Paulo e conversou com donos e funcionários dos estabelecimentos, e com consumidores.

Parte dos açougues desistiu de mostrar em placas o preço dos cortes de carne bovina porque a mudança é frequente (“Parece o tempo do Sarney”, disse um dono de açougue), além de que os altos valores poderiam afastar a clientela.

“Do jeito que está não está bom para o cliente, não está bom para nós, não está bom para ninguém… Talvez esteja bom para os chineses”, diz Mauro Nascimento, dono de açougue no Belenzinho, zona leste de São Paulo

Açougues sobem preço, mas não repassam tudo

O valor médio do boi gordo subiu 35,5% durante o mês de novembro, segundo dados do Cepea-USP (Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo). Para não perder clientes nem ter prejuízo, alguns açougues repassaram apenas parte deste valor —e de forma gradual.

“Estou pagando um preço que nunca paguei na vida. No começo, tentei segurar e não repassei, mas chegou um momento em que eu ia ficar na mão. Então, comecei a passar aos poucos e, mesmo assim, sem ser o valor cheio”, diz Mauro Nascimento, dono de açougue no Belenzinho.

Nascimento deu alguns exemplos:

  • Acém em outubro: R$ 16,90/kg
  • Acém em novembro: R$ 24,90/kg
  • Quanto deveria custar para ter lucro: R$29,90/kg
  • Contrafilé em outubro: R$ 29,80/kg
  • Contrafilé em novembro: R$ 44,90/kg
  • Quanto deveria custar para ter lucro: R$ 49,90/kg

“Eu decidi não aumentar tudo para não perder o cliente. Eles já veem esse preço e reclamam. Se aumentasse tudo, não ia dar”, lamentou Nascimento. “Mas, também, se eu deixar mais baixo do que isso, não consigo pagar nem as contas. Está muito caro.”

Em um supermercado de alto padrão nos Jardins, em São Paulo, o preço do contrafilé chegou a R$ 105/kg e o filé mignon, a R$ 115. O reajuste de cerca de 30% foi feito de uma vez nesta segunda-feira (2) e era esperada uma queda nas vendas, disse um funcionário, que não quis se identificar.

“Parece o tempo do Sarney”

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‘Parece o tempo do Sarney, lembra? Quando os preços mudavam todo dia’, diz dono de açougue no Belenzinho. (Imagem: Lucas Borges Teixeira/UOL)

O preço das carnes para os frigoríficos e, consequentemente, para os açougues tem mudado quase diariamente. Para lidar com isso, alguns açougues têm tirado os valores das placas.

“Nós fazemos compras de duas a três vezes por semana. A cada novo pedido, aumenta um pouco. Por isso, decidimos retirar os números dos anúncios”, diz Rosely Sena, gerente de açougue em Pinheiros, zona oeste de São Paulo.

“Antes, ficava um mês, às vezes mais. Agora, não temos como garantir. Se voltar semana que vem, [o preço] com certeza vai estar diferente”, disse Rosely.

“Parece o tempo do Sarney, lembra? Quando os preços mudavam todo dia”, diz Mauro Nascimento, dono de açougue no Belenzinho.

Em seu açougue, apenas frango, porco e carnes mais baratas têm o preço à mostra. Para as nobres, é preciso perguntar o preço. “Se não, o cliente já olha e nem entra”, disse Nascimento.

Clientes têm optado por frango e porco

Impulsionados pela carne vermelha, o frango e o porco também subiram. Em parte dos açougues visitados pela reportagem do UOL, o preço do frango quase dobrou, passando de R$ 8,90/kg para R$ 15,90. Ainda assim, sai mais em conta do que a carne vermelha, o que fez com que algumas famílias trocassem de proteína.

Com três filhos, o marido e um cunhado em casa, a contadora aposentada Adriana Santos disse que sua última compra grande de carne vermelha foi em outubro.

“Assim que eu vi que ia aumentar, fiz um estoque, mas é tanta gente que já acabou. Agora, vamos ficar no frango e no porco. Fazer aquela pancetta ou linguiça… Não é o mais saudável, mas é o que dá para pagar”, diz Adriana Santos, aposentada.

“O frango sempre foi muito popular para o brasileiro, sempre saiu bem. Mas, no fim de ano, com 13º [salário] e as festas, geralmente as pessoas compram mais carne. Neste ano, não. Estão mantendo o frango”, afirmou Norberto Ferreira, gerente de um açougue na República, região central de São Paulo.

O eletricista Geraldo Almeida também está promovendo uma mudança no cardápio de sua casa.

“Antes, podia ter contra [filé] ou alcatra parte da semana. Agora, semana sim, semana não, e olhe lá! Como é o ditado? Canja de galinha não faz mal pra ninguém, né? Falo isso para minha filha todo dia”, diz Geraldo Almeida, eletricista.

Preço do prato feito também deve subir

A alta de preços da carne também deve afetar os restaurantes —e o popular prato feito, com arroz, feijão e bife, também já está ficando mais caro. Geraldo Câmara, gerente de um restaurante na praça da Sé, no centro de São Paulo, disse que precisará rever os preços, mas teme perder clientes.

“A gente estava cobrando R$ 15 no PF de acém. Mas, pagando R$ 25 no quilo [da carne], fica impossível. E, se aumentar muito, o cliente nem vem mais. O jeito é segurar o prato executivo e aumentar os outros. A gente tem que pagar os funcionários, né? A conta de luz não espera a carne baixar”, diz Geraldo Câmara, gerente de restaurante na praça da Sé, centro de São Paulo.

Pequenos açougues sofrem mais

Milton Tenório, gerente de um açougue na Sé, afirmou que consegue segurar parte dos preços porque seu estabelecimento faz parte de uma rede, que compra uma quantidade maior, o que facilita a negociação com os frigoríficos. Segundo ele, os açougues pequenos estão passando por mais dificuldades.

“Como a gente compra três carretas de carne toda semana, fica mais fácil. Agora, um vendedor pequeno está tendo que escolher se mantém funcionário ou fica no prejuízo. A esse valor que estão cobrando, os dois não dá”, diz Milton Tenório, gerente de um açougue na Sé, centro de São Paulo.

Nascimento, do Belenzinho, passa por esse problema. “Está ficando difícil. O objetivo, neste mês, é fechar as contas e só.”

“Antes, se você pedia dez peças, vinham dez. Hoje, se você pede cinco, eles entregam duas, porque sabem que, assim que eu pedir as próximas duas, elas estarão mais caras”, diz Mauro Nascimento, dono de açougue no Belenzinho.

Preço não deve voltar ao nível do passado

Assim como os especialistas, os donos de açougues também dizem que o preço da carne bovina pode cair no começo de 2020, mas não deve voltar ao patamar anterior à alta.

“No final do ano, antes do Natal, eles sempre sobem um pouco e, em janeiro, sempre caem. Mas nunca tivemos uma alta como neste ano. Então, não deve voltar ao que era”, afirmou Tenório.

“Voltar àquele valor não volta, não, mas espero que já comece a cair, porque do jeito que está não está bom para o cliente, não está bom para nós, não está bom para ninguém… Talvez esteja bom para os chineses”, declarou Nascimento.

Com informações de: UOL

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