Por Lidia Ferrari
Consultora especialista em Cultura Organizacional, Liderança e Saúde Mental Corporativa
O Brasil acordou diferente nesta semana.
Não porque uma atualização de uma lei entrou em vigor. Mas porque uma pergunta que o mundo corporativo vinha adiando por décadas finalmente ganhou endereço oficial dentro das empresas: como estão as pessoas que sustentam esse negócio?
A atualização da NR-1, que passou a valer em 26 de maio de 2026, obriga todas as empresas com funcionários registrados a identificar, mapear e agir sobre os riscos psicossociais no ambiente de trabalho. Pressão excessiva, liderança abusiva, metas impossíveis, ambientes onde ninguém se sente seguro para falar. Tudo isso agora tem nome legal. E tem consequência.
Mas a norma é apenas o sinal mais visível de uma transformação muito mais profunda.
O modelo que não funciona mais
Durante décadas, empresas foram desenhadas para administrar processos. Não pessoas. Líderes aprenderam a medir produtividade, controlar entrega e cobrar resultado. A dimensão humana do trabalho ficou em segundo plano, tratada como variável secundária ou, na melhor das hipóteses, como responsabilidade do RH.
Os números mostram o custo dessa escolha.
Segundo a Organização Mundial da Saúde, ansiedade e depressão provocam a perda de 12 bilhões de dias úteis por ano no mundo, com impacto econômico de 1 trilhão de dólares. No Brasil, os afastamentos por transtornos mentais cresceram 68% em dois anos. Em 2024, foram registradas 17 mil menções ao burnout em processos trabalhistas, segundo a Data Lawyer. Número que era de 6.600 apenas dois anos antes.
Esses não são dados abstratos. São o retrato de empresas que operaram por anos em busca de resultado sem investir no ambiente que o produz.
O mundo mudou. A gestão precisa acompanhar.
O Fórum Econômico Mundial já alertou: até 2030, a inteligência artificial e a automação vão transformar profundamente o mercado de trabalho global. Funções operacionais e repetitivas serão progressivamente substituídas. O que permanece insubstituível é exatamente o que é humano. Criatividade. Liderança. Capacidade de construir relações e resolver problemas complexos em conjunto.
Nesse cenário, o ativo mais estratégico de qualquer empresa não está nas máquinas. Está nas pessoas que as operam, que pensam, que decidem e que criam.
E aqui está o ponto que muitos gestores ainda não internalizaram: o que trouxe a empresa até aqui não garante os resultados futuros. O modelo de gestão baseado em controle, pressão e hierarquia rígida perde eficácia num mundo que exige agilidade, inovação e engajamento genuíno.
A Gallup pesquisou 112 países e descobriu que apenas 23% dos trabalhadores no mundo estão de fato engajados no trabalho. Mais da metade está presente de corpo, ausente de intenção. No Brasil, o número é ainda menor. Isso não é problema de geração. É problema de ambiente.
Cuidar de gente é estratégia
Existe uma crença persistente no mundo empresarial brasileiro de que cuidar de pessoas e entregar resultado são escolhas opostas. Que humanizar a gestão significa abrir mão de performance.
Os dados contradizem essa crença com consistência.
Pesquisa da Gallup e Workhuman acompanhou 3.447 funcionários por dois anos e descobriu que profissionais que recebem reconhecimento de qualidade são 45% menos propensos a deixar seus empregos. Equipes com líderes que oferecem feedback significativo regularmente apresentam 80% de engajamento pleno. E empresas que investem em saúde mental colhem, segundo a OMS, retorno de quatro reais para cada real investido.
Cultura e performance não são opostos. Cultura bem construída é o que torna a performance sustentável. É a base que permite crescer sem quebrar as pessoas no processo.
A era onde patrão e funcionário crescem juntos
Há uma narrativa que precisa ser superada: a de que trabalhador e empresário estão em lados opostos de uma equação. Que o que beneficia um necessariamente prejudica o outro.
Não é verdade. E os números provam.
Empresa que cuida do ambiente reduz turnover. Turnover alto custa, em média, 40% do salário anual de um funcionário operacional e até 200% para lideranças. O empresário que entende isso não cuida de gente por obrigação legal. Cuida porque percebeu que é a estratégia de negócio mais rentável que existe.
E o trabalhador que está num ambiente assim não entrega porque tem que entregar. Entrega porque quer. Porque se sente parte de algo que vale o esforço.
O que a NR-1 veio iluminar
A norma não criou o problema. Apenas tornou mais caro ignorá-lo.
O que ela veio iluminar já estava lá, crescendo silenciosamente dentro das empresas brasileiras. O gestor que nunca grita, mas também nunca escuta. A meta que chega sem contexto. O silêncio que virou cultura. O time que funciona no automático enquanto vai se apagando por dentro.
A NR-1 chegou para organizar. Mas a transformação real só acontece quando a empresa decide, antes de qualquer fiscalização, que o ambiente que oferece às pessoas merece ser melhor.
Não porque a lei manda.
Porque sem pessoas que queiram estar lá, nenhum resultado se sustenta.
Lidia Ferrari
Consultora especialista em Cultura Organizacional, Liderança e Saúde Mental Corporativa. TEDx Speaker, colunista da Economia SP e fundadora da Ferrari & Braga Consultoria. Atua há 25 anos na transformação de ambientes de trabalho.
Instagram: @lidiaferraric | lidiaferrari.com.br