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O preço de ser mulher: Lei veta cobrança diferente, mas elas ganham menos

Por orientação política e tino para a sobrevivência, jamais me incomodei por não pagar para beber ou comer nos lugares.

Seja num romântico jantar debaixo da pitangueira de uma cantina italiana, seja no dogão da Ladeira dos Galés, eu costumo dizer aos moços que insistem em dividir comigo a conta:
– Por que não paga ela toda você, com os 30% a mais que ganha só por ser homem?

Recordei esta desproporcionalidade, divulgada pelo Ministério do Trabalho em março do ano passado, na Pesquisa Mulheres e Trabalho.

O estudo analisou o período de 2004 a 2014 e ainda mostrou que mulheres negras brasileiras ganham, em média, salários 40% menores do que homens brancos. Lembrando que elas absorvem quase a totalidade do trabalho doméstico e com os filhos, dado que nunca entra nesses noves fora.

Uma decisão liminar da juíza Caroline Santos Lima, de Brasília, parece ter assanhado novamente os debates sobre igualdade de gênero. O foco, porém, não é na igualdade salarial, ponto fundamental da questão, mas num aspecto que dói muito mais nos brasileiros, o bolso.

No início deste ano, um bem abotoado estudante de Brasília acionou o aparelho da Justiça brasileira para reclamar pelo direito de pagar a menor entrada de uma festa open bar – o ingresso feminino -, e conseguiu, em 23 de junho.

“A diferenciação de preço com base exclusivamente no gênero do consumidor não encontra respaldo no ordenamento jurídico pátrio”, sentenciou, cheia de elegância, a magistrada.

Uma semana depois, o Ministério da Justiça anunciou que transformaria a decisão local, de cobrança de entradas com valores diferentes de acordo com o gênero, em uma recomendação para festas em todo o país – como as famigeradas open bar, que aliam ingresso e consumo livre e costumam beneficiar mulheres, clientes que geralmente acessam a festa pagando a metade ou menos.

A proibição de preços diferentes para o mesmo produto e mesmo serviço, no entanto, é prevista em lei, no Decreto 5.903, desde de 20 de julho de 2006.

(Ilustração: Pagu)

A boate soteropolitana 30 Segundos, que há sete anos e meio promove festas open bar toda quinta-feira, cobrava R$ 50 para mulheres e R$ 90 para homens até o anúncio do Ministério – mesmo com a legislação de mais de uma década.

Aníbal Bittencourt, gerente da casa, resolveu cobrar ingressos iguais. “Desde o São João que é R$ 50 para todo mundo”, afirma Aníbal, que diz gostar de “andar direito”.

Feministas por todo o Brasil comemoraram essa regulamentação. Martha Rodrigues, vereadora do PT-BA, acha que a diferenciação de valores transforma mulheres em isca, dando a ideia de que elas estão à disposição dos homens, que pagaram mais caro para estar nos mesmos ambientes.

“É a mesma lógica machista das propagandas de cerveja que usam sempre imagens de mulheres ‘a serem degustadas’.  Essa diferenciação só colabora para a objetificação da mulher, que tanto combatemos”, diz a vereadora de Salvador.

Na humilde opinião desta escriba, a nova regra do Ministério é muito barulho por quase nada. O caso parece ser um passo rumo à equidade, mas não é: a lista de produtos e serviços em que mulheres pagam mais só por serem mulheres vai além do que os economistas chamam de “imposto rosa”, nome cafoníssimo para descrever o valor extra que mulheres pagam por coisas como tinturaria e produtos de higiene pessoal.

“Esse modelo social de que a mulher é mais consumista e ‘precisa’ de mais coisas do que o homem (roupas, maquiagens, perfumes, joias) é cultural, foi criado. O mercado aproveita isso e oferece produtos mais caros. Tem que ter a atitude de mudar, negar esse padrão e reclamar”, explica a consultora em comunicação Karina Terso.

O Departamento de Relações de Consumo da prefeitura de Nova York comparou 800 produtos à venda com versões masculinas e femininas como brinquedos, acessórios, roupas infantis e de adultos, produtos de cuidados pessoais e direcionados à casa. Concluiu que mulher custa mais caro: paga em média 7% a mais por produtos feminilizados.

Batendo pernas na Avenida Carlos Gomes em uma chuvosa tarde, com Pedro escanchado nos ombros e Alice capturada pela mão, a atriz Mariana Borges, 29 anos, mãe destes gêmeos de 4 anos, agacha aqui e ali, com a destreza de quem se formou bailarina, para pegar pés-de-chinelo número 22 que toda hora se soltam dos pequeninos.

Mariana não se espanta quando eu lhe apresento aos resultados de minha pesquisa de preços desiguais, feita na última segunda-feira (24), no Shopping Barra. Ser mulher é mais caro, sim, ela já sabia. “Tudo de Pedro é mais em conta”, diz.

“Quem me dera que Alice amasse Carros, mas ela gosta de Frozen”. A personagem favorita desta arianinha sapeca estampa botas plásticas da Leão de Ouro, atrás de uma plaquinha de R$ 89, enquanto uma bota bivitelina, com o Capitão América, paixão dos meninos homens, de acordo com o simpático vendedor Nonato, custa R$ 69.

Pesquisei preços de jeans para homem e mulher nas lojas Zara, mochilas para o mesmo diminuto público na Castro’s e calcinhas e cuecas de adulto na Scala. Só a Scala teve preço igual, e eu problematizei essa igualdade para a gerente Lorena: “Por levar mais tecido na feitura, a cueca não deveria custar mais?” Ela concordou.

Eu poderia ter pesquisado o shopping inteiro, mas captei da experiência das atendentes que seria uma viagem desnecessária: é tudo, sempre, mais caro pra gente, mesmo. Se eu encontrasse o contrário, seria uma aleatoriedade própria de liquidações.

Mas nenhuma disparidade é tão chocante quanto a resposta que recebi no balcão do Barber Beauty, salão de beleza de bacana lá no segundo piso, sobre o valor de corte infantil. Na placa, lê-se R$ 70 para homens e R$ 125 para mulheres (e não, se a mulher tiver “cabelo de homem”, não paga o preço de homem).

Descobri que umas tesouradas no cabelo de quem ainda não tem idade para apegos estéticos podem sair quase 1/3 mais salgadas se a cliente for menina. Parece justo que desde a infância a gente seja mais fadada à pobreza?

Achou que eu carreguei nas tintas, que eu sou mesmo exagerada? Ao longo da vida, Alice pagará 10% a mais do que seu irmão de idade por produtos idênticos ou similares, de acordo com dados preliminares de uma pesquisa que avalia gêneros e preços no país, coordenada pelo professor de cultura e consumo Fabio Mariano Borges, da Escola Superior de Propaganda e Marketing de São Paulo.

“Acho que o debate da igualdade de pagamentos deveria vir posterior ao debate da igualdade de oportunidades e de salários”, ponderou Karina, a publicitária.

Pois na mesma semana em que me inteirei deste entrevero nacional que prejudicaria diretamente o santo dinheiro da minha cerveja, veja que coincidência, me bateu a tesoura do desejo, desejo mesmo de mudar. Fui ao cabeleireiro.

Cheguei num chique salão de beleza pitubense: nome francês, capuccinno e salamaleques. Pedi que cortassem só as pontas, só pra soltar um pouco a juba. Serviço para um estagiário. Na hora de pagar, não hesitei:

– Cobra o corte de homem, por favor – falei.
– Oxe, cadê o homem?
– Sou eu, quer dizer, não sou eu, mas queria pagar o valor de corte “pra homem”, que é o mais barato.

Corta para eu pagando ligeiro o valor de mulher mesmo e saindo às pressas, com os seguranças de olho.

Invasão masculina
“Cuidar da aparência e, mais especificamente, dos cabelos, sempre foi tratado como ‘coisa de mulher’. As mulheres chegavam nos salões mais dispostas a pagar qualquer preço pela beleza”, analisa a cabeleireira Liu Nascimento, especialista em cabelos crespos.

Mas agora os homens saíram do armário, segundo Liu. “Estão vendo que a melhora da aparência está aí para todos e estão invadindo os salões para alisar, pranchar, escovar etc. Estão dando mais trabalho que as mulheres”, compara.

“Hoje eu sou a favor do valor ser de acordo com a demanda da pessoa, do tamanho do serviço a ser feito. Essa tabela de feminino e masculino está fora da moda”, avalia.

“Bastaria botar ‘corte simples’ no lugar de masculino e ‘corte complexo’ em vez de feminino”, resolveu o meu amigo e produtor de festas Camilo Fróes, 34 anos. Ledo engano, meu jovem.

“Cabelo de homem é muito mais complexo de se cortar. Muito mais tesouradas, chega a demorar mais, muitas vezes”, me respondeu Ivan Bispo, executivo da L’Oréal. Desculpa aí, amado Camilo, mas vou ficar com a opinião dos especialistas.

Estipule a igualdade para cabelos também, caro Ministério. Ao modo de não cobrar mais caro para o passageiro mais gordo que ocupa mais espaço numa poltrona, ninguém deve ser cobrado a mais pela catilogência da madeixa que tem. “Se eu quero colorir, deixa, se eu quero assanhar, deixa”, como canta o sábio Chico César.

Open bar: macho custa 120% mais
Eu nunca tinha ido a uma balada open bar quando topei o convite de Aníbal para conhecer a 30 Segundos. “Sete anos tocando Beatles, em Salvador, numa quinta-feira, e sem prejuízo”, diz ele, orgulhoso. Tantos predicados enumerados pelo simpático Aníbal acabaram por me convencer.

Fui linda: aposentei meus apetrechos de miçangueira hippie, botei um saltão, bebi horrores e me acabei de dançar. Não senti clima de carnaval, com gente puxando gente para beijar, e não achei a paquera agressiva – isso é o que eu deveria esperar, de acordo com amigos afeitos a micaretas. Não me senti uma consumidora de segunda categoria e nem um produto.

No dia seguinte, Aníbal, o chefe da folia, pelo telefone, mandou avisar que estudou muitos números para fazer a festa permanecer no superávit. Um deles foi o comportamento de consumo de cada gênero.

“Homem bebe mais a bebida mais cara, que é o uísque 12 anos. Quando não bebe uísque, bebe muita cerveja. Já mulher não bebe muito uísque e prefere caipiroska, que é extremamente barato pra mim”, diz ele. Formado em Economia, Aníbal me deu um bom dado: macho chega a custar até 120% mais para o bar.

Essa é a razão dos preços diferentes, e não o desejo de transformar a festa em um harém. “Usando a estatística, como fazem as seguradoras de veículos na hora de oferecer apólices mais baratas para mulheres, que estragam menos os carros, é possível provar que o consumo mais baixo da mulher justifica sua entrada mais barata”, golpeia Aníbal. E a gente finge que acredita, porque todo mundo sabe que festa com muita mulher é o que todo mundo quer.

Quantas mulheres você conhece que teriam R$ 100 pra entrar numa festa? Quantas teriam R$ 500? “Eles ligam, perguntam o preço, eu digo e eles não pechincham e nem se espantam”, diz Laís Daltro, do telemarketing da 30 Segundos.

“Quero ver o que esse estudante de Brasília faria se fosse a festas de swing (troca de casais) em São Paulo, onde chegam a cobrar R$ 500 para a entrada masculina e R$ 20 no ingresso de mulher”, diz o jornalista alemão Oliver Döhne, sobre o evento que para homens custa 96% a mais.

Cuidado, rapazes: se investigarmos tudo, é capaz de vocês terem, por lei, é que pagar para a gente se divertir. Primeiro tiramos a cobrança na balada, depois tiramos absorventes e tampões das farmácias, e os distribuiremos de graça pelo SUS.

Na minha opinião – agora nada humilde –, o Mistério da Justiça errou feio. Fazendo uma estatística de cabeça e à minuta, especialidade do anjo cronista Millôr, quase 100% das baladas que cobram ingresso diferenciado são open bar. E, ora, não vemos ingressos de Gal na Concha por R$ 50 a mulher e R$ 100 o homem. Ou vemos?

Vamos pagar igual na festa ou não vamos? Pouco importa: o condão dessa mixaria não vai impedir que mulheres sejam objetificadas, nem muito menos vai trazer a tão sonhada e tardia igualdade de direitos e oportunidades entre os gêneros. Viva as festas que não ofendem ninguém e “dai-me mais vinho que a vida é nada”, como escreveu Fernando Pessoa.

Por Joana Rizério

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